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Páscoa Feliz…
Oito horas em ponto. Luísa já se encontrava sentada em frente à secretária dando as boas-vindas a mais um dia de trabalho. Temia a chegada do senhor engenheiro, sobretudo se este estivesse mal disposto. Começou por verificar as encomendas reunindo uma série de faturas a ver se tudo estava em ordem. Tinha ainda que preparar os ordenados dos trabalhadores. Já se passaram oito anos e a moça continuava a aturar as barbaridades daquele patão barrigudo. Propositadamente vestia-se mal para ir trabalhar com o medo que ele tentasse alguma coisa fora do normal. Sonhava com o dia que pudesse esfregar-lhe a carta de despedimento na cara. Aquele insuportável ser era obra…
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Salta Eugénia, salta…
Eugénia correu para junto do rádio. Ligou-o e procurou uma emissora que passasse música do seu agrado. – Esta música hoje em dia é uma autêntica porcaria! Só barulho… depois dizem que é Dance ou lá como lhe chamam… isto serve lá para dançar? Ai meu Deus que saudades eu tenho de dançar uma valsa! Como eu gostava de dançar uma boa valsa com o meu Moreira, que Deus o tenha. Ele dançava tão bem a valsa, depois que partiu não mais dancei! Aqueles bailes… A viúva recordava os momentos mais felizes da sua juventude. O tempo, bem como a demência que a atacara, encarregaram-se de lhe apagar algumas memórias,…
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A alma em risco
O relógio da igreja já tinha badalado as nove da manhã. Apesar de espreitarem alguns raios de sol, o dia apresentava um tom acinzentado, remetendo-nos para o interior de uma cúpula melancólica e desgostosa, vazia de movimento. Tudo parecia falso naquela hora. O próprio cantar dos pássaros era estranho, certamente entoado por obrigação ou mesmo feito em playback. Nada batia certo. Naquela simples aldeia algo estava a acontecer, ou melhor, nada de novo acontecia. O orvalho matinal abafava o respirar das plantas que suspiravam pela ausência de calor. As portas das casas estavam escrupulosamente cerradas, obrigavam-nos a construir a chave e, através da nossa imaginação, penetrar no interior das mesmas.…
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Tudo era culpa
Luís chorava. Pedro olhava, ora para o berço, ora para a porta do quarto. – Pronto bebé a mãe já vem. Amarrado àquela cadeira de rodas sentia-se completamente incapaz, completamente impotente, um verdadeiro inútil. Começava a ficar nervoso. Não avistava Cláudia nem sequer ouvia os seus passos pelo corredor. Não queria chamá-la pois sabia perfeitamente que se não vinha tinha um motivo. Estava certamente a fazer o jantar ou a meter a roupa na máquina ou… – Foda-se! – praguejou ele. O seu sistema nervoso estava já a alterar-se ao ponto da sua respiração ficar completamente alterada. Por muito que se esforçasse não conseguia deixar e sentir raiva, quer por…
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Peso de consciência
Laura olhava a prateleira dos bolos. Era indiferente comer mais um ou dois, só tinha comido três ao pequeno-almoço. As bolas de Berlim com aquele creme amarelo estavam a pedir à moça para que as comesse. Chamou a empregada de mesa. – Eram duas bolas de Berlim, por favor, e uma coca-cola. – Com certeza. Com a bandeja na mão a empregada lá trouxe a continuidade do lanche de Laura. Os olhos desta sorriam de felicidade. Abriu a boca e deu uma enorme dentada num dos bolos. Ficou com os lábios cheios de açúcar. Lambeu-os, limpou-os ao guardanapo e bebeu um gole de coca-cola. Reparou num casal que se encontrava…
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Então e eu?
Logo que desligou o telefone Roberto saiu do escritório a correr. Meteu-se no carro e foi ao encontro do filho. Aquela chamada poderia mesmo ter acabado com a vida do homem. Não tinha em atenção o trânsito, não via nada naquele momento, apenas uma linha reta que lhe indicava o caminho do Hospital Santa Maria. O semáforo estava vermelho mas não levou o homem a abrandar a sua marcha, pois ainda lhe faltavam uns bons dez quilómetros. Seguiu e passou. Chegando ao local, estacionou em cima de uma passadeira. Saiu a correr e deslocou-se às informações das urgências. – Queria saber de um rapaz que deu entrada aqui, teve um…
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Eu não sou filho de ninguém.
Afonso entrou no confessionário. Não sabia bem o que estava ali a fazer, apenas que alguma coisa o obrigara a ir para aquela igreja. – Perdoe-me padre porque pequei. Afonso não via a cara do homem que estava do outro lado. – Há quanto tempo não te confessas meu filho? – perguntou o padre. – Eu nunca me confessei… – Não foste criado na família cristã e sentiste necessidade e encontrar o caminho da salvação meu filho? – Deve ser mais ou menos isso senhor! Mas agradeço que se cale e me escute! É para isso que lhe pagam! – Mas meu filho… – Cale-se senhor… eu não sou filho…
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A sombra de mim
O último paciente saiu. Um homem de meia-idade, provavelmente a mesma do doutor. Não deveria ter mais de cinquenta anos. Doutor Castro estava visivelmente cansado. Todo o dia a escutar, todo dia a tentar aconselhar. Foram dez pacientes, dez pessoas, dez doentes, cada um com o dobro dos problemas do anterior. Castro parou para pensar. A sua secretária já tinha saído há algum tempo, eram já nove da noite. Estava sempre a dizer-lhe para ter em conta o tempo que passava com cada paciente, mas Castro não tinha coragem de os mandar embora. No fundo ele era um manto retalhado, constituído por pedaços dos seus pacientes. – Então e eu?…
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Gilberto fechou-se no quarto…
Gilberto fechou-se no quarto. Retirou a chave da fechadura, abriu a janela e atirou-a. Poisou a garrafa em cima da estante. Abriu a gaveta da mesinha e retirou um caderno, remexeu e lá encontrou uma esferográfica. Não sei muito bem por onde começar e muito menos o que escrever. Acho inúteis estas palavras mas cá vão. Ultimamente sinto que não existo. Sinto-me um pincel gasto que o Pintor terá que substituir… para nada presto. Ultimamente as conversas, as nossas conversas, resumem-se a contas, dinheiro e empréstimos. Enfim. Não quero desculpar-me de nada mas também não estou aqui para assumir responsabilidades. Maria acho que a culpa é tua. Apenas te limitaste…
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– Sou quem quiseres!
– Sou quem quiseres! – disse Rita ao homem com quem ia deitar-se. Era só mais um. Fechou a porta. Nada lhe era estranho uma vez que aquele espaço já tinha sido alugado por ela várias vezes. No fundo fazia parte do seu local de trabalho. Despiu o vestido de seda, azul turquesa, e esticou-o em cima da cadeira para não o amachucar. Passou as mãos pelo cabelo. A fragilidade feminina saía-lhe pelos poros da pele. Com movimentos subtis foi despindo as meias. O homem permanecia imóvel sentado na beira da cama daquele quarto alugado para o ato que se seguiria. Rita olhou-o. O fato muito bem engomado e a…



























