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Sombras

sombras

Uma das armas utilizadas pelos líderes no período mais recente da História é a manipulação do sistema educativo. George Orwell escreve que um partido que apenas quer o seu próprio bem e que apenas se interessa pelo poder, trata de o obter através da pobreza social e do analfabetismo defendendo um regime desse tipo que, “liberdade é escravidão e ignorância é força”.

Sombras

A State of Mind

– Não senhor. Elas não contam! Se são casadas não vão contar porque os maridos ganham-lhes nojo; se são solteiras não vão contar porque precisam de arranjar homem para se casar. Quem vai querer uma mulher que já foi de outro? Quem vai querer uma mulher usada… desonrada?

Eu não sou filho de ninguém.

Sou quem quiseres!

Sou quem quiseres! – disse Rita ao homem com quem ia deitar-se. Era só mais um. Fechou a porta. Nada lhe era estranho uma vez que aquele espaço já tinha sido alugado por ela várias vezes. No fundo fazia parte do seu local de trabalho.

Despiu o vestido de seda, azul turquesa, e esticou-o em cima da cadeira para não o amachucar. Passou as mãos pelo cabelo. A fragilidade feminina saía-lhe pelos poros da pele. Com movimentos subtis foi despindo as meias. O homem permanecia imóvel sentado na beira da cama daquele quarto alugado para o ato que se seguiria. Rita olhou-o…

Gilberto fechou-se no quarto…

Gilberto fechou-se no quarto. Retirou a chave da fechadura, abriu a janela e atirou-a. Poisou a garrafa em cima da estante. Abriu a gaveta da mesinha e retirou um caderno, remexeu e lá encontrou uma esferográfica.

Não sei muito bem por onde começar e muito menos o que escrever. Acho inúteis estas palavras mas cá vão. Ultimamente sinto que não existo. Sinto-me um pincel gasto que o Pintor terá que substituir…

Tudo era culpa

Luís chorava. Pedro olhava, ora para o berço, ora para a porta do quarto.

– Pronto bebé a mãe já vem.

Amarrado àquela cadeira de rodas sentia-se completamente incapaz, completamente impotente, um verdadeiro inútil. Começava a ficar nervoso. Não avistava Cláudia nem sequer ouvia os seus passos pelo corredor. Não queria chamá-la pois sabia perfeitamente que se não vinha tinha um motivo. Estava certamente a fazer o jantar ou a meter a roupa na máquina ou…


Tu fazes-me tanta falta…

Irene sentia um aperto tão forte no peito, uma dor tão abafada que seu coração parecia querer explodir de tanto aperto.

– Estou aqui a desabafar como uma tola… Sabes Jômo para a semana mato o porco. Vem aí tempo mais fresco para curar a carne ao fumo. Ando é um bocado receosa, nem sei se te devia contar isto. Mas olha foi para isso que nos casamos. Não podem haver segredos entre nós. Sabes o Armando, o porqueiro que costuma matar-nos o porco, da última vez que lá foi matar o porco virou-se para mim com uma conversa que não gostei nada. Olha que ele virou-se para mim e disse ao caso que eu ainda era uma rapariga nova que devia tirar o luto. Disse ele que o luto não traz ninguém de volta. Disse também que eu era uma mulher jeitosa e bonita que devia arranjar alguém e tocar a vida para a frente.

Já viste o descaramento dele Jômo? Eu é que tenho respeito senão mandava-o à merda com a conversa. Se tivesse alguém para matar o porco… mas por estas bandas é só ele. Mas desta vez se ele me vem com a mesma conversa eu juro pela tua alma que lhe tiro a faca dos porcos da mão e o corro porta fora!..


Quando eu vou à missa ao domingo todos os homens olham para mim e dizem-me olá por pena de mim, mas eu não gosto de nenhum, eu só gosto do doutor. Gosto muito do sinal grande que tem no braço do relógio, gosto dos seus dentes branquinhos e das suas unhas. O doutor cheira muito bem, cheira aos lírios.


Carta ao doutor


Último dia

Os cerca de dez homens que ali se encontravam ali acenaram-lhe com a cabeça. Nogueira ficou atónito. Não esperava aquilo, foi uma vida dedicada àqueles homens. Dirigiu-se para a porta da serralharia ainda com a esperança que viessem ao seu encontro. Atravessou a serralharia e nada. Saiu o portão principal da fábrica e nada. Já um pouco distante olhou para trás e reparou que ninguém o seguia. Sentiu-se muito triste, de certa forma humilhado…

– Palhaços de merda! Tudo o que fiz por estes palhaços e agora é assim! Até o Norberto que se fazia tão amigo… até dinheiro lhe emprestei! Filhos da puta.