Os homens “bazam” e as mulheres desenrascam
Os homens “bazam”[1] e as mulheres desenrascam
A Joana vive no meio dos bairros extensos do município de Viana, Luanda, a zona mais povoada do país. Quem já aterrou em Luanda não pode deixar de ver a dimensão desses musseques[2] que se estendem por kilómetros infindos.

Ela tem cinco filhos. Os mais velhos, gémeos, treze anos e o mais novo, quatro. Ainda antes de nascer o último, cinco anos atrás, o esposo foi para Benguela (sul de Angola); foi, supostamente, para arranjar um trabalho melhor, e conseguir sustentar com mais qualidade uma família, com dificuldades evidentes. No princípio ainda telefonava com alguma regularidade, mas à medida que o tempo foi passando, foram diminuindo as conversas até que, a uma determinada altura deixou de ligar e de atender.
A Celestina, também ela habitante dos bairros de Viana, tem oito filhos. Alguns meses atrás o esposo deixou-a, para se juntar com uma “quatorzinha”, segundo as suas palavras.
Nesta altura, surge a vossa pergunta:
– O que é que isso tem a ver com a educação?
A Joana e a Celestina são, apenas, dois exemplos que eu conheço. Mas como elas, existem, nos arredores de Luanda, Viana, centenas de mulheres que são abandonadas pelos maridos, sem qualquer escrúpulo de consciência. Eles “bazam” à procura de novos romances e paixões e estabelecem uma nova prole de uma segunda, terceira, ou mais mulheres. A maioria deles são, ou militares ou polícias, duas das poucas profissões com um rendimento certo ao fim do mês.
Recordo de ouvir a minha mãe dizer: “quem tem muitos filhos é pobre”.
Estamos a chegar lá.

Com tantos filhos para sustentar, elas necessitam, acima de tudo, de alimentar as suas crianças porque, como é evidente, primeiro está o comer e, depois, o estudar. E por isso de dedicam a zungar[3]. Quanto a eles, esses homens “sem um pingo de vergonha na cara”, esquecem, na maioria dos casos, os filhos que foram “semeando” por onde passaram. E essas crianças, que não pediram para nascer, e que têm direitos, ficam excluídas da educação. Para além disso … e essa é uma das maiores tragédias de Viana, muitas dessas crianças, a quem foi vedado o ensino, vão alimentar os “gangues” que, por sua vez, vão encher as prisões do país.


[1] O verbo “bazar” existe na língua portuguesa, mas é de uso coloquial e informal, significando “ir embora”, “fugir”, “sair rapidamente” ou “desaparecer”, vindo do quimbundo kubaza.
[2] Musseque é um termo angolano, do quimbundo mu seke, que significa “areia vermelha” e designa os bairros populares e periféricos de Luanda, semelhantes a favelas, construídos em terrenos arenosos, com características de urbanização informal e muitas vezes precária, envolvendo desafios sociais e de infraestrutura.
[3] vender informalmente nas ruas, especialmente em Angola (derivado de “zunga”, do Kimbundu, para circular/girar). O uso mais comum e conhecido refere-se à atividade das zungueiras, vendedoras ambulantes.


