Uma criança-mãe
Num país como Angola, com uma multidão incontável de crianças e um sistema de saúde extremamente deficitário e carente de quase tudo, as campanhas de vacinação em massa, asseguradas por grupos de cidadãos que, em grupos, se distribuem pelas diferentes zonas do país, são marcos fundamentais na guerra contra as doenças, como a poliomielite.
Um dos postos predilectos para a vacinação são as escolas do país. E foi assim que, em 2018, a nossa escola (S. Margarida) foi escolhida como centro de vacinação da pequenada do bairro kapango.
Era, já, o segundo dia da imunização, e as filas intermináveis de crianças não diminuíam. Um magote de mães com os seus muitos filhos girava, desordenadamente, num rodopio que obrigava a uma atenção constante para impor alguma disciplina.
E no meio daquela confusão, o meu olhar ficou preso naquela criança-mãe. Ela não tinha mais de 12 anos, mas pareceu-me ser até mais nova; trazia a mais pequenina enrolada na cintura, mas havia ainda mais três ou quatro à sua volta.
Aquele olhar meigo, sereno, calmo e sorridente marcou o meu dia; ela revelou uma maturidade que não encontrei em meninas muito mais velhas do que ela. Enquanto esperava na fila, ia-se deslocando para a frente e para trás acalmando duas das “suas filhas” que choramingavam com medo da pica; ela falava-lhes ao ouvido, acarinhava e “mentia” dizendo que não era bem uma pica …
Não foi fácil vacinar todas aquelas crianças, e até eu tive que segurar algumas que não queriam “apanhar a pica”.
Depois de imunizar “todos os seus filhos”, foi para a fila do registo e ali continuou a tomar conta da sua criançada, tal e qual uma verdadeira mãe; enfim, uma criança-mãe.
Como ela, muitas meninas entre os 10 e os 12 anos, às vezes ainda mais novas, assumem a tarefa de cuidar dos irmãos. Deveriam estar na escola, mas as tarefas que lhes são impostas, roubam o tempo para os estudos. Cuidar dos mais novos é, apenas, parte dos seus ofícios que, incluem, ainda: lavar a roupa, lavar a louça e cozinhar.
Sim, é muito diferente daquilo que estamos habituados a ver. Em Portugal, muitas das crianças, mimadas em demasia, quase não colaboram nas tarefas familiares. Noutros lugares, como em muitas zonas do interior de Angola, as crianças-mães não têm tempo para brincar.


