Fragmentos,  Fragmentos de resistência

Dunas

Pela objetiva da minha velha companheira observo um equilíbrio frágil entre areia, água, vento e vegetação. A natureza, como sempre, lá encontrou uma forma de resolver os seus problemas e de seguir em frente. Por vezes, como vemos na imagem, a barreira natural pode ser extremamente frágil e ser incapaz de travar a erosão deixando as dunas vulneráveis e à mercê de ventos e marés.

Perante esta imagem, lembro-me da Rafaela, professora de português e colega de trabalho, que apenas há uns dias atrás, me contou uma história que relata bem as fragilidades da condição humana e que me faz olhar para estes pequenos fragmentos de vegetação e assemelhá-los aos intervenientes do seu relato.

Dizia ela que, num destes últimos anos, durante uma aula, um aluno de nono ano teve um repentino ataque de asma. Para seu grande espanto, os seus colegas de turma, alguns deles que o acompanhavam desde o primeiro dia do pré-escolar, não se levantaram para o ajudar. Observavam simplesmente, num misto de curiosidade e indiferença. Nem quando a Rafaela lhes pediu para irem chamar ajuda, as pobres criaturas se mexeram do lugar.

Vejo a educação ao nível dos valores e da cidadania como as frágeis raízes desta duna já que, ambas impedem o desmoronar de um habitat. Não podemos continuar a avançar como comunidade quando o lema é: cada um por si. A preocupação e o cuidado com o outro está cada vez mais distante das interações diárias. Numa época de globalização, de transportes e de mass media, quando temos tudo e todos na palma da mão, vivemos sós e isolados. Não temos disponibilidade emocional porque estamos a conectar de forma virtual. Compensamos a falta de empatia com uma centena de likes. Falta envolvimento.

Como combater esta erosão eminente? Talvez percebendo que é necessário dar um passo atrás em algumas práticas tecnológicas e voltar a investir uma boa parte do nosso tempo numa aproximação mais consciente pelo outro. A união e a solidariedade não se constroem de olhos postos nos ecrãs. Talvez eliminar a possibilidade de vivermos de forma virtual em espaço escolar seja o primeiro passo, talvez investir numa formação para a cidadania de forma mais consciente, tendo em conta estas realidades, seja outro desses passos.

Deixo, por fim, um pequeno texto, bastante divulgado e que já inspirou grandes obras de grandes autores. Se quisermos manter a barreira natural que nos impede de desmoronar, não pode ser de outra forma:

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. – John Donne

Fotografia e texto: Sérgio Moreira