Cadernos de Missão,  Caminhos,  Mapas,  Vozes

A chuva não consegue parar as crianças

Em Portugal e um pouco por toda a Europa, falamos das estações da Primavera, Outono, Inverno e Verão.

Em Angola não existem as quatro estações. Por estes lados falamos na “estação seca” e na “estação das chuvas”. A estação seca, sem chuva, e com temperaturas mais baixas (no Huambo, por exemplo, podem chegar aos 4 graus) transcorre de Junho ao fim de Agosto. De Setembro até Maio, acontece, aquela que é apelidada “estação das chuvas”.

Normalmente, as primeiras chuvas, mais fracas, acontecem em Setembro e Outubro. A partir de Novembro, a chuva vai-se intensificando e, com oscilações, conforme os anos, cai com alguma regularidade até ao fim de Março. Abril e Maio, ainda dentro do período chuvoso, marcam já o fim da pluviosidade.

Quando acontecem os “grandes períodos de chuva” (que começam, por exemplo, durante a noite e terminam por volta do meio-dia), tudo pára: Escola, Função Pública, Serviços Religiosos …

É uma espécie de lei que está interiorizada no subconsciente: chuva sem parar ninguém vai trabalhar.

Mas as crianças são capazes de desafiar convenções e tradições, quando existe algo que as motiva.

Decorria o ano lectivo do ano de  2017, quando uma dessas chuvas desabou sobre o Bairro Capango, em Lwena, onde se situa a Escola Santa Margarida, à qual fiz referência nos primeiros textos publicados.

Eu e o Victor (seminarista da minha Congregação Religiosa que fez um estágio em Angola), sem grandes esperanças de encontrar alguém na escola, saímos de casa e chegamos, pontualmente, às 07 e 30, como era habitual, a fim de prepararmos os ambientes.

Para nossa surpresa, algumas, poucas, é verdade, foram aparecendo …

Às 8 horas, um grupo grande (ainda muito longe do total dos alunos) encontrava-se nos espaços do edifício. E os professores? Nem um apareceu …

O que vamos fazer? Perguntamos um ao outro.

Juntamos todos numa sala e começamos uma aula improvisada: jogos de palavras, cantos e concursos …

E assim, embalados pelo entusiasmo e energia daquelas crianças, fomos tirando “coelhos da cartola” para corresponder ao seu sacrifício de deixar as suas casas e enfrentar a intempérie …

Aquela pequenada merecia a nossa dedicação e empenho …

Porque não há nada mais recompensador do que um sorriso genuíno no rosto de uma criança.

"A vida é feita em cada entrega alucinante." Amaro Vieira é missionário de vocação e educador por missão. Com um percurso académico e espiritual firmado na Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, Amaro dedicou as últimas décadas a desenhar caminhos de formação em geografias distintas, do Porto à Índia. Membro da congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos), viveu a educação não como uma transferência de saber, mas como um acompanhamento de vida. Entre 2001 e 2007, em Fort Cochin, na Índia, foi a voz e o apoio de novos formandos, mergulhando numa cultura onde aprender e rezar se fundem no quotidiano. Em Portugal, a sua liderança na Obra ABC e no Seminário Missionário Padre Dehon consolidou a sua visão de uma pedagogia do cuidado e da proximidade. No projeto Edupolis, Amaro Vieira traz-nos o relato de quem não apenas estudou os sistemas, mas caminhou neles. As suas crónicas são "Cadernos de Viagem" de um missionário que vê na escola o lugar da sementeira e no aluno o trigo que há de crescer. Através do seu olhar, a educação estrangeira deixa de ser um mapa distante para passar a ser uma vivência partilhada.