• A State of Mind

    A alma em risco

    O relógio da igreja já tinha badalado as nove da manhã. Apesar de espreitarem alguns raios de sol, o dia apresentava um tom acinzentado, remetendo-nos para o interior de uma cúpula melancólica e desgostosa, vazia de movimento. Tudo parecia falso naquela hora. O próprio cantar dos pássaros era estranho, certamente entoado por obrigação ou mesmo feito em playback. Nada batia certo. Naquela simples aldeia algo estava a acontecer, ou melhor, nada de novo acontecia. O orvalho matinal abafava o respirar das plantas que suspiravam pela ausência de calor. As portas das casas estavam escrupulosamente cerradas, obrigavam-nos a construir a chave e, através da nossa imaginação, penetrar no interior das mesmas.…

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    Tudo era culpa

    Luís chorava. Pedro olhava, ora para o berço, ora para a porta do quarto. – Pronto bebé a mãe já vem. Amarrado àquela cadeira de rodas sentia-se completamente incapaz, completamente impotente, um verdadeiro inútil. Começava a ficar nervoso. Não avistava Cláudia nem sequer ouvia os seus passos pelo corredor. Não queria chamá-la pois sabia perfeitamente que se não vinha tinha um motivo. Estava certamente a fazer o jantar ou a meter a roupa na máquina ou… – Foda-se! – praguejou ele. O seu sistema nervoso estava já a alterar-se ao ponto da sua respiração ficar completamente alterada. Por muito que se esforçasse não conseguia deixar e sentir raiva, quer por…

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    Peso de consciência

    Laura olhava a prateleira dos bolos. Era indiferente comer mais um ou dois, só tinha comido três ao pequeno-almoço. As bolas de Berlim com aquele creme amarelo estavam a pedir à moça para que as comesse. Chamou a empregada de mesa. – Eram duas bolas de Berlim, por favor, e uma coca-cola. – Com certeza. Com a bandeja na mão a empregada lá trouxe a continuidade do lanche de Laura. Os olhos desta sorriam de felicidade. Abriu a boca e deu uma enorme dentada num dos bolos. Ficou com os lábios cheios de açúcar. Lambeu-os, limpou-os ao guardanapo e bebeu um gole de coca-cola. Reparou num casal que se encontrava…

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    Então e eu?

    Logo que desligou o telefone Roberto saiu do escritório a correr. Meteu-se no carro e foi ao encontro do filho. Aquela chamada poderia mesmo ter acabado com a vida do homem. Não tinha em atenção o trânsito, não via nada naquele momento, apenas uma linha reta que lhe indicava o caminho do Hospital Santa Maria. O semáforo estava vermelho mas não levou o homem a abrandar a sua marcha, pois ainda lhe faltavam uns bons dez quilómetros. Seguiu e passou. Chegando ao local, estacionou em cima de uma passadeira. Saiu a correr e deslocou-se às informações das urgências. – Queria saber de um rapaz que deu entrada aqui, teve um…

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    Eu não sou filho de ninguém.

    Afonso entrou no confessionário. Não sabia bem o que estava ali a fazer, apenas que alguma coisa o obrigara a ir para aquela igreja. – Perdoe-me padre porque pequei. Afonso não via a cara do homem que estava do outro lado. – Há quanto tempo não te confessas meu filho? – perguntou o padre. – Eu nunca me confessei… – Não foste criado na família cristã e sentiste necessidade e encontrar o caminho da salvação meu filho? – Deve ser mais ou menos isso senhor! Mas agradeço que se cale e me escute! É para isso que lhe pagam! – Mas meu filho… – Cale-se senhor… eu não sou filho…

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    A sombra de mim

    O último paciente saiu. Um homem de meia-idade, provavelmente a mesma do doutor. Não deveria ter mais de cinquenta anos. Doutor Castro estava visivelmente cansado. Todo o dia a escutar, todo dia a tentar aconselhar. Foram dez pacientes, dez pessoas, dez doentes, cada um com o dobro dos problemas do anterior. Castro parou para pensar. A sua secretária já tinha saído há algum tempo, eram já nove da noite. Estava sempre a dizer-lhe para ter em conta o tempo que passava com cada paciente, mas Castro não tinha coragem de os mandar embora. No fundo ele era um manto retalhado, constituído por pedaços dos seus pacientes. – Então e eu?…

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    Gilberto fechou-se no quarto…

    Gilberto fechou-se no quarto. Retirou a chave da fechadura, abriu a janela e atirou-a. Poisou a garrafa em cima da estante. Abriu a gaveta da mesinha e retirou um caderno, remexeu e lá encontrou uma esferográfica. Não sei muito bem por onde começar e muito menos o que escrever. Acho inúteis estas palavras mas cá vão. Ultimamente sinto que não existo. Sinto-me um pincel gasto que o Pintor terá que substituir… para nada presto. Ultimamente as conversas, as nossas conversas, resumem-se a contas, dinheiro e empréstimos. Enfim. Não quero desculpar-me de nada mas também não estou aqui para assumir responsabilidades. Maria acho que a culpa é tua. Apenas te limitaste…

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    – Sou quem quiseres!

    – Sou quem quiseres! – disse Rita ao homem com quem ia deitar-se. Era só mais um. Fechou a porta. Nada lhe era estranho uma vez que aquele espaço já tinha sido alugado por ela várias vezes. No fundo fazia parte do seu local de trabalho. Despiu o vestido de seda, azul turquesa, e esticou-o em cima da cadeira para não o amachucar. Passou as mãos pelo cabelo. A fragilidade feminina saía-lhe pelos poros da pele. Com movimentos subtis foi despindo as meias. O homem permanecia imóvel sentado na beira da cama daquele quarto alugado para o ato que se seguiria. Rita olhou-o. O fato muito bem engomado e a…

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    Dia dos namorados

    Era um dia muito especial para Andrade. Não só por se tratar do dia dos namorados mas, principalmente porque ia jantar com o seu menino. Sentia-se um adolescente excitado mas ao mesmo tempo com medo ou, vá lá, receio. Nos seus cinquenta e oito anos de idade nunca tinha feito tal coisa, sempre encobria aquilo que desejava. José, ou Zé como gostava de ser chamado, tinha apenas 22 anos de idade. Andrade tirou-o da rua. Quando o engatou o rapaz era um sem-abrigo que se prostituía para ganhar algum dinheiro para comer e para os seus vícios. Já passaram três anos mas Andrade ainda se lembrava perfeitamente daqueles olhos negros,…

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    “Meu Deus, Meu Deus… porque me abandonaste?”

    Fausto abriu os olhos. Dirigiu o olhar para o relógio que se encontrava amorficamente poisado em cima da cómoda do quarto e reparou serem cinco horas e 23 minutos. Conseguiu dormir quase duas horas seguidas. Já não havia parte do corpo que não sentisse dor. Os companheiros voltaram. Agarrou rapidamente o pano de cima da mesa-de-cabeceira e começou a vomitar. Os vómitos eram de tal ordem que sentia a alma ser-lhe arrancada pelas entranhas. Pararam. Limpou a boca a uma ponta do pano seca. O cheiro do vomitado incomodou-o um pouco mas… já estava habituado. Enrolou o pano e atirou-o para o chão. Com um simples gesto agarrou o comprimido…