A State of Mind

“Meu Deus, Meu Deus… porque me abandonaste?”

Fausto abriu os olhos. Dirigiu o olhar para o relógio que se encontrava amorficamente poisado em cima da cómoda do quarto e reparou serem cinco horas e 23 minutos. Conseguiu dormir quase duas horas seguidas.

Já não havia parte do corpo que não sentisse dor. Os companheiros voltaram. Agarrou rapidamente o pano de cima da mesa-de-cabeceira e começou a vomitar. Os vómitos eram de tal ordem que sentia a alma ser-lhe arrancada pelas entranhas. Pararam.

Limpou a boca a uma ponta do pano seca. O cheiro do vomitado incomodou-o um pouco mas… já estava habituado. Enrolou o pano e atirou-o para o chão. Com um simples gesto agarrou o comprimido de cima da mesinha e colocou-o na boca. Bebeu um gole de água para o empurrar pela faringe.

Deitou o corpo mantendo a cabeça erguida.

 Reparou no crucifixo que se encontrava religiosamente poisado ao lado do relógio. O Livro do antes e o depois também aí se encontrava aberto, simples objeto de adorno. Lembrou-se que não tinha salvação. Lembrou-se que o cancro do pâncreas, apesar de toda a rádio e quimioterapia resolvera não se ir embora. Recordou as frias palavras do médico: “fase terminal”.

Sentiu-se injustiçado. Tal como o Senhor diante dos seus olhos também Fausto iria abandonar esta Terra com trinta e três anos. Existia porém uma pequena diferença entre ambos: enquanto o Outro fora sepultado em cima de uma pedra, Fausto seria enterrado num buraco.

Praguejou. Ralhou mesmo com o Ser Superior pois achava que merecia viver mais alguns anos. Não sabia em que pensar. Não queria pensar. Um simples desabafo de raiva saiu-lhe pela boca – “Que se lixe Deus e os santos”.

Deixou cair a cabeça na travesseira. Elevou a mente e, de olhos abertos, começou a devanear em coisas estranhas. Homens com cabeças quadradas, cães com cinco patas e mulheres sem braços. Num ápice sentiu-se arrastado para a realidade. Os vómitos voltaram.

Agarrou outro pano. Vomitou. Limpou a boca e arremessou o pano para os pés da cama. As dores aumentaram. Pegou no selo de morfina e colou-o no peito.

Enquanto friccionava o abdómen com ambas as mãos soltou um ténue gemido: “Meu Deus, Meu Deus… porque me abandonaste?”.

Agarrou o terço de cima da mesa-de-cabeceira e lá começou:

– “Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio agora e sempre Ámen…”

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Imagem: Sérgio Moreira

Texto: Adão Baptista

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