Sombras

Sombras – apresentação do projeto

Ao longo da História as relações que os povos tiveram com os seus governantes variaram em função de alguns fatores. Seja em monarquia, tirania, ditadura, democracia ou outra forma de governo, a função do Estado sempre foi muito clara: manter a ordem; a segurança; a saúde e a educação do seu povo. À medida que as civilizações foram crescendo e se tornaram mais complexas, também as expectativas relativamente ao poder se foram alterando. O conceito de felicidade coletiva passa a designar um conjunto de elementos que não apenas as condições básicas de sobrevivência e acrescentam-se conceitos como a igualdade, a liberdade e o conforto de cada indivíduo. Um governante que entenda as necessidades do seu povo consegue, como o grande rei Leónidas, que o sigam cegamente para uma morte certa na escuridão do fogo inimigo. Já o que coloca as suas necessidades à frente das do Estado ou que não entende a vontade do povo, para além de reservar o cantinho guardado no inferno, como defende Etiénne de La Boétie, por vezes encontra uma forma mais rápida de lá chegar.

Nas relações entre o Estado e o indivíduo, estará sempre presente a mensagem apresentada pela Alegoria da Caverna. Não deixando de se enquadrar a parábola no seu tempo, pode ser, no entanto, considerada intemporal já que a podemos aplicar a qualquer momento da História ou governação. A ideia de que o Estado age não para garantir felicidade mas para reprimir ações e teorias que possam eliminar a ignorância dos seus cidadãos, tem sido divulgada ao longo dos tempos por diversos autores. Cada cidadão que passou pela cronologia da História foi, nem que por um dia, prisioneiro naquela caverna e, habitando na sua zona de conforto, iludido pela retórica de que a alternativa é a desordem, permitiu que as sombras fossem a sua realidade. Ao Estado parece caber a função de manter o prisioneiro longe da luz do sol.

Que Estado é este que nos quer afastados do verdadeiro conhecimento? Só pode ser tirano. Ou então ditador. Democrático não é de certeza.

Se há algo que a Antiguidade Clássica, a Idade Média a Moderna e a Contemporânea têm em comum são governantes astutos na arte de aprisionar em cavernas, independentemente do sistema político em vigor. A luta tem sempre sido entre duas ideias: a de todos fazermos parte desse Estado e contribuirmos para a sua construção ou a dos governantes conseguirem dizer abertamente: “O Estado sou eu”. A propósito desta ideia, já Platão referia que “a cidade onde os que devem mandar são os menos apressados na busca do poder é a mais bem governada e a menos sujeita à sedição e aquela onde os chefes revelam disposições contrárias está ela mesma numa situação contrária”.

O sistema democrático apresenta-se sempre como o menor de todos os males. No entanto, a ideia de que o voto popular, transfere para o cidadão o poder de decisão e o liberta da opressão estatal é um engodo que nós, embriagados pelo conforto e segurança proporcionados pela maioria dos estados democráticos modernos, escolhemos abraçar. Na verdade, o voto é um cheque em branco em programas políticos que se tornam obsoletos no dia seguinte às eleições. O povo, manso, acata.

Como tornar este povo que vive em democracia mais submisso? Como controlar as massas? Sendo clara a vantagem de governar um povo ordeiro, ao longo da História os diversos líderes têm utilizado estratégias similares, seja em monarquia, ditadura ou democracia. Etiénne, apresenta, no século XVI, a utilização da religião, os jogos, as festas, as condecorações, os discursos retóricos e o conjunto de rituais que distinguem o líder dos restantes, como ferramentas utilizadas para a submissão das massas.

Se pensarmos nos fascismos europeus ou até nas democracias modernas, não estamos assim tão desenquadrados do que foi proposto pelo autor.

Uma das armas utilizadas pelos líderes no período mais recente da História é a manipulação do sistema educativo. George Orwell escreve que um partido que apenas quer o seu próprio bem e que apenas se interessa pelo poder, trata de o obter através da pobreza social e do analfabetismo defendendo um regime desse tipo que, “liberdade é escravidão e ignorância é força”.

A organização social baseada num conjunto de elites detentora de instrução e de informação e de um povo iliterato caiu com a revolução científica e a democratização do conhecimento bem como com a implementação da ideologia das luzes. A imprensa, a democratização do ensino e mais tarde os mass média apresentam-se como desafios a quem tem de nos submeter.

Segue-se um trabalho de controlo da imprensa e de despreocupação com a analfabetização por parte dos estados totalitários e mantém-se esse trabalho nos sistemas democráticos que abraçam o caráter lúdico do ensino em detrimento da valorização de uma vertente capaz de formar cidadãos com massa crítica.

Ao nível educativo já não se fala em analfabetismo, que aliás, é um dos grandes combates das democracias. Por outro lado, uma das maiores violências que o Estado comete atualmente contra o indivíduo tem o nome de analfabetismo funcional. Nesse sentido, e atendendo ao que propõe Orwell, parece que o importante é que consigamos trabalhar numa linha de montagem mas não sejamos capazes de questionar as lideranças.

Neste cenário o cidadão tem a sua responsabilidade. No entanto, continuamos felizes neste jogo de sombras. A busca da verdade acaba nas letras gordas dos títulos das notícias de jornais. A insensibilidade perante a corrupção é tal que já se normalizaram determinados comportamentos. O interesse pela vida política é cada vez menor e a ideia de felicidade passa pela vaidade e pela escravidão a um sistema de consumo que está desenhado para nos desviar a atenção. É mais importante o modelo do telemóvel do que o uso que se lhe pode dar no sentido de formação pessoal. Na era da informação nós fomos educados a não olhar nem analisar as notícias. Não saindo do senso comum estamos a perpetuar desigualdades sociais numa época em que já não temos desculpa para não sabermos e não agirmos. Gostamos de viver nas sombras e estamos a regressar à caverna por vontade própria.

Sérgio Moreira

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