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As crianças negras são tão capazes como as brancas!

Há alguns anos atrás, estava eu a trabalhar em Luena, província do Moxico, Angola.

Nessa altura, nós, membros da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, terminada a construção de uma escola primária, estávamos a receber voluntários de Portugal para dar um apoio às crianças que frequentavam os nossos espaços.

Então, entre Julho e Agosto, grupos de jovens, com muita disponibilidade e uma grande dose de boa vontade, prescindiam das suas férias para dar um pouco do seu tempo às crianças que frequentavam as aulas no nosso espaço de ensino.

Em 2017, um triunvirato, composto por duas raparigas e um rapaz, decidiram dar aulas de recuperação às crianças da Escola S. Margarida (assim se chamava o nosso estabelecimento de ensino). Eram a Madalena, a Francisca e o Mário.

E eles foram extraordinários na dedicação e profissionalismo demonstrados no trabalho com aqueles petizes que mostravam uma enorme vontade de aprender e “crescer em sabedoria”. Durante um mês, com um programa bem planeado e grande criatividade, fizeram aqueles pequenos estudantes melhorar as suas habilidades na matemática e na escrita da língua portuguesa e, até, na música, uma vez que o Mário era professor de música.

E eu pude testemunhar isso mesmo quando, num dos últimos dias do seu trabalho, aqueles professores dedicados me convidaram a sentar na sala de aulas para eu verificar o que aquelas crianças tinham aprendido.

Numa das nossas últimas conversas, a Madalena disse-me:

– Padre, estas crianças são tão capazes de aprender como as crianças em Portugal. O que eu vivi neste mês me fez entender como elas são inteligentes!

Sim, pensei eu, as crianças negras são tão capazes como as brancas. Se houvesse uma aposta séria, responsável, dedicada e comprometida com a educação! Se houvesse estruturas e professores mais dedicados e responsáveis! Se houvesse uma aposta séria na educação, este país poderia sonhar com um futuro bem mais promissor.

Percebi a profundidade dessa famosa frase de Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”

"A vida é feita em cada entrega alucinante." Amaro Vieira é missionário de vocação e educador por missão. Com um percurso académico e espiritual firmado na Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, Amaro dedicou as últimas décadas a desenhar caminhos de formação em geografias distintas, do Porto à Índia. Membro da congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos), viveu a educação não como uma transferência de saber, mas como um acompanhamento de vida. Entre 2001 e 2007, em Fort Cochin, na Índia, foi a voz e o apoio de novos formandos, mergulhando numa cultura onde aprender e rezar se fundem no quotidiano. Em Portugal, a sua liderança na Obra ABC e no Seminário Missionário Padre Dehon consolidou a sua visão de uma pedagogia do cuidado e da proximidade. No projeto Edupolis, Amaro Vieira traz-nos o relato de quem não apenas estudou os sistemas, mas caminhou neles. As suas crónicas são "Cadernos de Viagem" de um missionário que vê na escola o lugar da sementeira e no aluno o trigo que há de crescer. Através do seu olhar, a educação estrangeira deixa de ser um mapa distante para passar a ser uma vivência partilhada.