A cintura de Luanda é um barril de pólvora ligado a um rastilho aceso
A monstruosa periferia de Luanda, a fervilhar de gente vivendo num afã desassossegado e frenético, está ensombrada por vários problemas que, ano após ano, preparam as condições ideais para uma situação alarmante e dramática cujo fim é, a médio ou a longo prazo: a tomada das ruas pela população, numa manifestação irracional da indignação popular, da frustração e da revolta contra tudo e contra todos.

Existem zonas onde as forças de segurança não conseguem entrar. A ordem pública foi substituída pelo medo. Em bairros inteiros, a ausência do Estado deixou um vácuo que começa a ser preenchido por estruturas paralelas, onde a autoridade formal é desconsiderada. Se a soberania não é sentida em todo o território nacional, é legítimo questionar se ela ainda existe de forma plena.

Os bairros escondem gangues de adolescentes e jovens, para além de uma multidão infantil a viver nas ruas.
Eles são a consequência lógica de uma série de flagelos: fuga à paternidade; poligamia que leva à ausência paterna e à discriminação na hora de pagar a alimentação e os estudos aos filhos; promiscuidade familiar, consequência da concentração em espaços habitacionais muito reduzidos de um número muito grande de parentes, potenciada pela noção da “família alargada” que torna normal que filhos e filhas vivam em casa dos irmãos e irmãs dos pais e outros parentes mais ou menos próximos ou afastados; desemprego galopante e subida dos preços da, chamada, “cesta básica”.

Estão reunidos os ingredientes para um caldo de grande turbulência social, com destaque para a violência doméstica, abusos sexuais, abandono dos menores e fome …

É muito difícil entender e abarcar a verdadeira dimensão da tragédia mas, a verdade nua e crua, é que são centenas de crianças, adolescentes e jovens a viver em condições desumanas e degradantes, que atentam contra a dignidade humana, comprometendo, de forma incalculável, o seu futuro, e consequentemente, o da nação.

E assim entramos no mundo das respostas dadas pelo governo e pela sociedade a tão gigantesco e complexo desafio que se resume numa pergunta:
É possível salvar esta gente? O que está a ser feito?



